O céu é o limite

“O céu é o limite no que diz respeito à remuneração”

Carine Aprile Iervese, do A TARDE, 28/09/2008

“Se você deseja ingressar em um mercado de trabalho aquecido e com tendência a borbulhar ainda mais no futuro, aposte na área  de tecnologia da informação. A gerente de projetos especiais da IBM do Brasil, Sirlene Toledo,  destacou, na entrevista à repórter Carine Aprile Iervese,  dois segmentos que disputam profissionais qualificados e pagam muito bem por eles. Sirlene apontou também o que ainda está faltando nas pessoas que desejam entrar na área e por onde começar essa promissora trajetória.

A TARDE | O que se sabe é que há muitas vagas e poucos profissionais qualificados na área de TI, no Brasil. Como está esse déficit?
Sirlene Toledo |  Segundo a Assespro – Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet, hoje, esse déficit é da ordem de 20 mil vagas não ocupadas por falta de pessoal capacitado. Segundo essa mesma associação, esse número deve chegar a mais de 100 mil
até 2010.

AT |  Quais os motivos para faltar tantos profissionais nessa área?
ST | Existem várias questão que levam a isso. A primeira é a baixa atratividade, aqui no Brasil, em relação as profissões relacionadas com tecnologia da informação. Na verdade, o brasileiro tende a gostar mais das carreiras ligadas a humanas. Tudo que é relacionado a exatas, os jovens têm menos interesse.   Essa é uma explicação. A outra é o próprio crescimento exacerbado. Nós temos um mercado interno de tecnologia da informação super expressivo e super aquecido. Existe um movimento chamado offshore, que é a movimentação de empregos. Hoje, com o avanço da tecnologia, os sistemas de uma empresa podem estar localizados em um país, os serviços em outro e a sede da empresa num terceiro. Então, com essa mobilidade toda de emprego também houve um aumento expressivo das vagas aqui no Brasil.

AT | O que acontecerá com este mercado com a falta de profissionais ou o que pode acontecer no futuro com esse alto déficit? Isso pode limitar o desenvolvimento das empresas?
ST | Em algum momento creio que vai limitar. Como a IBM tem uma marca muito forte, isso ainda não é um problema. Por ser uma empresa muito admirada, a atratividade é muito grande. Mas prevendo que isso possa acontecer no futuro, desenvolvemos parcerias educacionais para a inserção de novas pessoas no mercado.  Em geral as próprias empresas estão tomando para a si essa responsabilidade, através de projetos e parcerias com o governo, associações de classe, tentando desenvolver projetos e fomentar, tanto a profissão como também a oferta de vagas na área de tecnologia da informação.

AT |  O que pode atrair o jovem a ingressar na área?
ST | A primeira questão é divulgar um pouco o espectro das carreiras dentro da área. São muitas e, em geral, as pessoas conhecem mais as carreiras ligadas a programação. Não sei porque razão. Mas esta é uma carreira que depende muito do jovem conhecer lógica.  Mas, dentro do mercado de tecnologia da informação existem carreiras mais ligadas a administração. Vou te dar o exemplo de duas. O gerente de projetos, ele é um administrador e precisa conhecer um pouco da área, basta um conhecimento mínimo, nada profundo. A outra é a área de consultoria de negócios, que também o mercado está hiper-aquecido e são carreiras que não necessariamente estão ligadas a exatas. Então, conhecer todas essas possibilidades no mundo do TI seria muito interessante para o jovem.

AT | O que mais tem de atrativo neste mercado?
ST |  Na IBM, por exemplo, o plano de carreira é super extenso. As pessoas podem entrar como júnior, ou seja, ainda cursando o ensino médio técnico, ela nem se formou, e pode finalizar a carreira dela na empresa. Os dois últimos presidentes da IBM começaram a carreira como analista de sistemas. Então, o céu é o limite. E neste mercado globalizado, a gente não precisa restringir isso ao Brasil. Nós temos muitos brasileiros ocupando cargos lá nos mercados maduros, como a Europa – meu antigo chefe foi para lá – e agora também na Ásia. O jovem pode inclusive continuar na área técnica. Porque eu te dei dois exemplos de pessoas que foram para a área de gestão, viraram presidentes, mas existe o que a gente chama de carreira em Y. Ou seja, você pode continuar como técnico a sua vida inteira e continuar com a carreira ascendente.

AT | Dê um  exemplo…
ST | Têm pessoas que estão há 30 anos na IBM, mas ainda em ascensão. Ele começa como analista de sistema, pode virar um arquiteto  e chegar até a ser um pesquisador, trabalhando num dos nossos laboratórios. São carreiras de alta responsabilidade, porém não tem nada de gestão. Às vezes eles não têm nem funcionários para comandar. Se interessam mais por essa área técnica mesmo.

AT | E  o mercado de offshore?
ST | É um mercado globalizado que oferece muitas oportunidades. No entanto, para entrar nessa, o jovem precisa de duas coisas: a primeira é falar outro idioma fluentemente, de preferência o inglês, mas o espanhol é também muito importante e o francês. Então, qualquer segunda língua é importante, mas obviamente que o mercado de inglês é muito maior.

AT | E o mandarim, já está sendo requisitado?
ST | Não consigo enxergar isso num curto espaço de tempo, aqui no Brasil. Até porque demora muitos anos para você aprender o mandarim. Mas se eu fosse um jovem, eu me interessaria em aprender e eu começaria rápido (risos).

AT | Você citou duas características importantes. A primeira foi ter uma segunda língua. Qual seria a outra?
ST | A segunda coisa, a gente tem chamado de ciência de serviços. Todos os nossos cursos aqui no Brasil… Isso é uma tendência mundial, mas vamos falar de Brasil… Todos os cursos foram desenhados para as pessoas trabalharem no mercado de manufatura. Nenhum curso, a exceção de algumas opções de marketing que já existem, está deixam o profissional apto para trabalhar no mercado de serviços. Então, se a educação formal não me dá essas informações eu tenho que buscá-las de alguma forma. O ideal seria que as universidades fizessem isso. Já estamos conversando e algumas criaram cursos, outras desenvolveram disciplinas com este aspecto.

AT | Mas o que falta exatamente nesse sentido?
ST | O que está mais pegando é o comportamento dos profissionais. O comportamento tem que ser um pouco diferente do que acontece com a logística industrial. Quando eu vou trabalhar com serviços,  tenho que ter um comportamento um pouco diferente. Eu tenho que me preocupar não só com fazer bem as minhas tarefas. O olhar do profissional tem que estar no produto final, no que o cliente vai receber. Pode parecer uma coisa irrelevante, mas não é. A preocupação não é cumprir a minha tarefa. Minha preocupação é saber  se o cliente vai receber a coisa certa. Tenho que passar a atuar em um time, pensar em colaboração.

AT | Isso é uma característica específica dos jovens de hoje?
ST | A gente tem notado que essa nova geração veio um pouco mais individualista. Existem várias razões para isso. É forma como essa geração está sendo criada, sem mãe em casa, com pais que são workaholics, então ele olha e fala: “eu não quero isso para mim”. Então ele se torna egoísta e passa a se preocupar muito mais com ele do que com o resultado. Essa parte mais comportamental tem gerado um impacto muito grande para a gente. A falta de ter o foco no cliente, de se preocupar em atender bem as suas expectativas.

AT | Como este profissional vai em busca deste conhecimento? Existem cursos para isso?
ST | Algumas universidades já estão atentas para isso. Mas eu acho que os alunos  tem que demandar, porque essa é a forma mais efetiva para que isso mude. É a forma mais rápida da gente conseguir resolver este problema. Várias universidades do mundo já fizeram isso, então seria apenas uma adaptação. Não seria nenhum bicho de sete cabeças.

AT | Voltando um pouco às carreiras. Você poderia indicar quais são as especializações com maior déficit de profissionais?
ST | Existem duas áreas que estão absurdamente piores do que as demais. Uma é a de mainframe, ou seja, profissionais que saibam programar ou operar mainframe.  Em algum momento da história, houve uma falha de entendimento em relação ao mainframe, que as universidades deixaram de ensinar essa especialidade. Então, essa geração que trabalha hoje com mainframe está se aposentando. Como as escolas não formaram, ficou um buraco grande. O que acontece? É problema de um lado e oportunidade do outro. Esses profissionais ganham uma verdadeira fortuna no mercado. Então é um ótimo momento e um fator de atração absurdo.

AT | E a segunda área?
ST | São as profissões ligadas a tecnologia SAP, que é um software de gestão empresarial, que também tem um déficit de profissionais absurdo. Agora o que mais pega, na hora da contratação é quando vamos fazer o cruzamento em busca de um profissional que seja formado em TI e que tenha o inglês. Aí é que pega. Então, se eu pudesse dar um conselho para o profissional que já está em TI é: corra atrás de inglês. E se eu pudesse dar um conselho para aqueles que ainda estão buscando uma profissão eu indicaria esse mercado, que é super vasto, mas eu diria: comece a estudar inglês já, antes de entrar na faculdade. Já chega na faculdade falando, porque aí você vai chegar na frente.

AT | E a remuneração? Como é a variação salarial?
ST | É difícil a gente falar de médias, mas é uma área bem atrativa. Principalmente se você tem essas habilidades que eu citei. Uma coisa eu te falo, o céu é o limite. É aquela questão da oferta e da procura. A pessoa que sabe mainframe e sabe sobre esse software de gestão (SAP) não fica um só dia desempregado e está sendo disputado pelo mercado. Com certeza, pela lei da oferta e procura, esses salários subiram demasiadamente.

AT | Como ingressar na área?
ST | Aconselho que as pessoas procurem os cursos médios-técnicos. Acho que estes cursos são como uma prova de conceito. O jovem não tem maturidade suficiente para escolher uma profissão. Eu diria que é uma forma dele experimentar.  Quem conclui um ensino médio normal, se candidata a um curso técnico destes. Existem vários cursos tanto no nível federal, estadual, alguns até em nível municipal. Enquanto eles estiverem fazendo este curso não faltarão vagas, tanto para estagiário como para profissional mesmo.

AT | E a partir daí?
ST | A partir daí, eles checam qual área têm maior afinidade. Se é com a área de programação, que precisa ter conceito de lógica muito apurado, e tem a área de operação, que você vai trabalhar operando o sistema do cliente ou da própria empresa. Obviamente não abandonar a universidade. Nós incentivamos que o aluno siga a sua carreira, porque a gente não dispensa o diploma universitário de forma nenhuma. A gente aconselha essa passagem pelo ensino médio como uma forma de testar se realmente é isso que ele quer. Essa passagem pode parecer uma perda de tempo, mas na verdade pode poupar frustrações futuras na busca de uma profissão que você escolheu de maneira equivocada.”

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